Não me lembro exatamente de quando foi que eu comecei a jogar nos fliperamas. Mas lembro perfeitamente de quando eu vi um gabinete pela primeira vez: eu era uma criança, saindo do Supermercado Lusitana, lá do Maranhão. Fora da área do mercado tinha uma área de alimentação. E nela, meia dúzia de máquinas, uma delas de Arcade. Era um gabinete meio feioso, preto e mal-cuidado, bem genérico, como mais tarde eu iria descobrir que era até comum no Brasil da década de 1990. Mas uma ficou bem marcada na minha cabeça: ela estava rodando a primeira versão de Street Fighter II, “The World Warrior”.

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O primeiro impacto

Admito que a cara de bom moço blasé do Ryu não me chamou a atenção nessa época, até porque a máquina não ajudava a me empolgar. Acho que só os grandes centros tiveram o prazer de ter as máquinas com PCBs oficiais da Romstar, a representante brasileira da Capcom e da SNK. Mas os arcades, sendo originais ou não, tinham entrado de sola na minha vida, ainda mais quando vim morar no Rio de Janeiro. A convivência com os amigos me apresentou os consoles de mesa, que viviam em uma disputa para ver quem chegava aos pés dos fliperamas nas lojas.

O Mega Drive constantemente era alardeado como “aquele que mais se aproximava da experiência arcade” por seu controle de 6 botões, trazido por uma necessidade urgente quando trouxeram Street Fighter II: Champion Edition para o console. Esse atropelo todo moldou a indústria, e me fez gravitar de volta aos arcades. Cadilacs and Dinosaurs, Art of Fighting 3, Samurai Shodown 3, Teenage Mutant Ninja Turtles, The King of Fighters ‘95… Essas máquinas simplesmente brotavam na minha frente enquanto seguia com minha vida.

Teve uma vez que fui a um hotel fazenda próximo de Resende, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, num passeio da escola que estudava, que tinha uma sala cheia de máquinas. No hotel, pagávamos 50 reais por um colar de contas de plástico que servia como moeda corrente lá dentro. Adivinhem onde eu passei a maior parte do tempo no passeio? Quando não estava na piscina, estava nos arcades.

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Obviamente eu acabei conhecendo muitas coisas nessa trajetória, como o famoso Street Fighter de Rodoviária, a máquina de Crouching Tiger Hidden Dragon -que não era nada além de uma versão toda zoada de “The King of Fighters 2003 -, entre outras. Tive inclusive minha fase de jogos de ritmo, como Dance Dance Revolution, Pump it Up e Para Para Paradise, mas essas daí sem dúvida eu era garoto até demais.

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Combates épicos, uma ficha de cada vez

Nos fliperamas da vida, não era incomum ver uma cena dramática: Aquele momento que alguém tá na máquina, chega outro jogador e posiciona desafiadoramente a ficha no player 2. Ou num jogo cooperativo, vai na maior boa intenção ajudar o companheiro de guerra que estava em plena limpeza das ruas. Daí, formavam-se filas e mais filas de jogadores interessados em participar, onde a grana gasta na ficha (ou no crédito do cartão) não importava, e sim o jogo em conjunto, a emoção de virar o “Rei da Mesa” ou de derrubar aquele jogador notório num momento glorioso.

Por morar perto do Shopping Rio Sul, eu vivia passeando pelo Philadelphia Game, quando meus amigos da época não marcavam de ir até a Hot Zone, na Barra da Tijuca. Embora basicamente cruzasse o Rio de Janeiro para jogar videogame, infelizmente não tive a sorte de conhecer a famosa GameWorks, o fliperama mais legal que alguém poderia ter conhecido na vida. O lendário fliperama tinha máquinas incríveis, que meus colegas falavam com empolgação, mas infelizmente fechou em 2003 como um sonho efêmero.

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Com a chegada do Playstation 2, o efeito sentido na guerra de consoles dos anos 90 sofreu um ataque devastador. Máquinas de arcade passaram a ser quase que relegadas a shoppings, com jogos exclusivos, ou versões de jogos vistos nos aparelhos caseiros. Hoje em dia é possível ver nos Game Centers do Japão uma infinidade de jogos que são Beta Tests de futuros títulos para os consoles caseiros.

No Brasil, a coisa é pingada. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, foi possível ver por um tempo várias máquinas grandes, de jogos famosos. Hoje em dia, quando não estamos falando de um local como a Hot Zone, a tendência é para as máquinas de garra, muitas máquinas não-oficiais de games antigos e algumas surpresas, como as de card games interativos que são uma febre no Japão, mas aqui no Brasil mal se sustentaram.

No Shopping Nova América mesmo teve uma de Animal Kaiser que não faço ideia de como o povo apostou num jogo tão de nicho, levando em conta o intenso receio dos donos desses estabelecimentos. As máquinas clássicas ainda estão espalhadas por aí e são quase como descobrir um tesouro perdido, especialmente quando se encontra um gabinete genuíno.

Tempos atrás tive essa sensação ao achar uma do jogo dos Simpsons, que tinha experimentado apenas numa rodada de emulação na casa de um amigo. Isso contrastando com as infindáveis máquinas de tickets que rendem prêmios, que parecem ter tomado os fliperamas, ao lado de uma Daytona USA já idosa. Obviamente existem as exceções à regra, mas não são mais cláusulas pétreas: Os fliperamas que pipocavam em todo lugar, em todo boteco, estavam relegados à queda.

Os arcades voltaram a vida com os construtores de fliperamas!

Adaptando computadores pessoais velhos, com sistemas operacionais modificados, aliando-se aos já manjados emuladores, várias pessoas ao redor do globo passaram a construir seus próprios gabinetes. Ora como passatempo para manter a nostalgia, ora como trabalho remunerado, os construtores acabaram por se tornarem guardiões de boas lembranças e são considerados historiadores de tempos recentes, apesar do uso comercial de emulação não ser uma prática legal, juridicamente falando.

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Mais recentemente, com a chegada de computadores portáteis como o Raspberry Pi, as máquinas passaram a não depender de componentes pesados e sensíveis como HDs e placas-mãe padrão, miniaturizando o próprio esforço e possibilitando agilidade na construção das mesmas. Esses arcades não são apenas máquinas que relembram os jogos que fizeram toda a diferença nas vidas de vários nerds, mas também agregam outras experiências, como a dos consoles caseiros até os 32 Bits.

Além da “forma clássica”, os construtores de arcades refinaram seus designs. Não era mais necessária uma máquina enorme que ocupasse um espaço excessivo. Isso ficou com as máquinas de PCB no passado, que já tinham sido superadas pelas placas versáteis produzidas pela SNK (a MVS) e da SEGA (Naomi). Nasceram os modelos de Balcão (Bartops) e os Arcades Portáteis, onde a tela era qualquer televisão que o sinal de vídeo pudesse ser conectado.

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Última ficha por hoje

De uma forma ou de outra, pode-se dizer que independente do gosto ou da habilidade do construtor, uma coisa é certa: os arcades clássicos dificilmente serão esquecidos. Como um legado comum, sendo passado de pai pra filho, de geração em geração, é bem possível que os Fliperamas sejam um Hobby secular. E por mais e mais tempos, será exclamado “Tou na de fora!” ou “Próximaaaaa!”

Depois disso, se quiserem conhecer mais da história dos fliperamas, indico também este vídeo do canal Velberan Games, que fez um apanhado bem completo dela:

Agora nós queremos saber de vocês. Deixem aí nos comentários qual foi sua experiência com os arcades, se conhece alguém que fabricou uma máquina, se sente saudades. Compartilhe suas memórias com nossa comunidade, conte sua história, afinal, hobbies também são vivências e é isto que gostamos aqui no Hobbismo!

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