“O grupo está na caverna onde confirmou ser o esconderijo da criatura que aterrorizava a cidadela, ela aparecia em noites de Lua Cheia e o povo era aterrorizado pela fera.

Com isso, o ladino segue na frente para destravar as armadilhas e é bem-sucedido nos testes de percepção. Em seguida, o narrador pede que role “1d20 + Operar Mecanismo” ou habilidade similar que funcione para lidar com armadilhas.

O jogador rola o dado e, infelizmente, tira o resultado 1, uma falha crítica. A armadilha é acionada e o grupo leva um dano relativo, mas o mago, com poucos “pontos de vida” após batalhas recentes para chegar até ali, perece nesse momento. O jogador que interpretava o mago, agora descontente, precisa fazer outra ficha devido à perda de seu personagem.”

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Situações assim costumam acontecer em aventuras de RPG quando o risco de morte é elevado. Há sistemas que trazem certa facilidade na perda de um personagem e isso se deve à vários motivos: pontos de vida baixos ou estatísticas de resistência e jogadas de proteção não sendo boas, causando sérias consequências para a saúde física do mesmo ou até do grupo inteiro.

A classe do Mago no sistema Dungeons & Dragons é a que menos possui pontos de vida e sua resistência física costuma ser baixa, especialmente nos níveis iniciais. Isso causa sensação de insegurança e risco de morte fácil. Geralmente, os jogadores que interpretam os personagens arcanos ficam sendo protegidos enquanto conjuram seus feitiços nas situações de combate, mas, caso sejam atingidos por ataques inimigos que causem dano significativo, há risco desse personagem morrer rapidamente numa sessão de jogo.

A morte em combate

“O grupo se encontra enfrentando inimigos que estavam à espreita para assaltá-los. Os bandidos são cruéis, mas subestimam a experiência dos heróis que estavam atentos e descobrem a armadilha. Por isso, quase todos os membros do grupo não foram pegos de surpresa, exceto um dos guerreiros que falhou no teste em percebê-lo.  

Os deuses não foram piedosos com esse erro e o ataque certeiro e bem-sucedido do ladrão acaba por causar-lhe um dano elevado e, ainda por cima, envenenado-o e causando-lhe grandes restrições físicas. Infelizmente, o grupo não conseguiu protegê-lo e o guerreiro é abatido logo no segundo ataque do inimigo.”

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Para ilustrar que a morte em combate justo ou injusto é possível, podemos pensar em como os narradores e jogadores lidam com essa parte. Já ouvi, em determinados grupos, que um jogador ficou muito frustrado com a morte do personagem a ponto de haver desentendimentos entre os participantes. Apesar de parecer uma atitude imatura, podemos pensar que importância teria a morte desse personagem jogador para a história? O combate foi interessante e divertido para o sujeito em questão?

Se imaginarmos como a morte era retratada na era dos contos sobre heróis mitológicos, onde uma morte heroica era vista como status. Se, por isso, a morte desse personagem tenha acontecido em um combate interessante, que trouxe diversão a todos os jogadores, talvez o acontecimento fatal tenha valido a pena.

Quando se trata de uma morte eventual e sem importância alguma para a história, comprometendo a diversão do jogador, pode se tornar uma experiência frustrante. Isso acontece, provavelmente, por conta do jogador ter gastado o tempo fazendo ficha, perdendo o personagem numa situação onde não teve significado nenhum para a trama.

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Aí fica a pergunta: isso significa que os personagens jogadores são sempre protagonistas do mundo com o “botão de continue” igual aos jogos de videogame? A resposta é sim e não. Sim, por que há a possibilidade de fazer novas fichas e novos personagens, dependendo da imaginação do narrador, não havendo a morte final desse mesmo personagem.

Ao mesmo tempo, o não também é uma resposta possível, já que o risco de mortalidade é necessário para gerar a sensação de adrenalina para o jogador. O fato do personagem ser preferido de deuses, por exemplo, não lhe dá o controle da vida e da morte. Se tivesse, a possibilidade de morte e o risco de perda do personagem não ocorrerá e a graça do RPG pode deixar de existir.

A morte em combate é interessante por que provocam emoções intensas nos jogadores, principalmente na hora de rolar os dados contra o oponente e se defender de ataques e poderes deles também. Por outro lado, sugerimos criar formas de interação para além da troca de golpes e poderes. Isso faz com que a cena do combate seja mais imersiva, pois caso haja algum óbito, aconteça de maneira divertida e empolgante.

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A morte por falha em testes

“O ladino inicia sua busca por armadilhas na dungeon do Rei Lich, há armadilhas mágicas que somente a perícia desse especialista pode dar conta. Os feitiços do mago não conseguiram cancelá-las e nem a força e vigor do bárbaro resistiria aos problemas que tais maldições causariam ao grupo. Prejudicar um membro que é muito útil em combate dessa forma seria um ato de tolice.

Assim, com suas habilidades e talentos juntos à ação do bardo de estimulá-lo com sua canção de inspiração, o jogador percebe que o personagem recebe bônus para a tarefa de eliminar as armadilhas mágicas. O narrador o diz para rolar 1d20, falhando apenas com um resultado 1. Entretanto, se ele falhasse, haveria uma tragédia… E assim, ela se confirmou!”

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Falhas por testes de perícias não costumam trazer consequências tão drásticas como a morte de um personagem, mas é comum nos sistemas com estilo Old School. Numa escalada em montanha, por exemplo, se o personagem estivesse numa altura muito elevada, o narrador pediria para o jogador realizar um número X de testes e, se houvesse falha em algum destes, o personagem cairia para a morte.

O exemplo descrito acima era o mais comum em alguns estilos de jogos, mas hoje a morte por esse tipo de teste não é mais tão comum, ainda que possível, em mesas de jogo com estilo mais realista. Como o grupo interpreta a morte por uma falha em testes de perícia?

O desafio dessa armadilha iria fazer os jogadores perderem seus personagens e causariam algum impacto dramático para a história? O ladino ser o único que pode destruir essa ameaça e fazer o grupo avançar, daria uma carga interpretativa interessante para o grupo? Propor desafios é legal em termos de rolamento de dados, mas pensar no contexto da história também é importante, afinal, para um jogador e talvez até para o narrador, a perda daquele personagem por conta de um evento insignificante para a história acabaria frustrando a diversão do grupo inteiro.

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Isso não significa que não há riscos ou mesmo batalhas que podem vir a ter a morte como resultado, mas a morte de um personagem interessante sem qualquer importância para a história, valeria a pena para a diversão de todos?

A morte como auto-sacrifício

“O Rei Lich está a um passo da vitória quando derrotou o grupo e quase todos estão caídos e sem energia vital. O paladino está quase morto, o mago sem suas magias de ataque e à beira da morte, o ladino sem seus ataques furtivos e o bárbaro foi dominado pelo poder maligno do inimigo, atacando o grupo. A ranger tenta impedi-lo, pois é a única que ainda possui forças para lutar e o ladino usa sua “furtividade”, se escondendo nas sombras, enquanto o Rei Lich segue para absorver a energia do “cristal da eternidade”. Se bem-sucedido, se tornará o novo deus da morte.

Enquanto a ranger enfrenta o poderoso bárbaro, antes um amigo e agora um perigoso oponente, o ladino se esgueira para engabelar o vilão supremo, conseguindo impedi-lo de tocar no cristal e absorver o poder do artefato. Graças a ação do ladino, o mago consegue conjurar um feitiço para retirar “o cristal da eternidade” daquele templo sagrado e escondê-lo no local mais longe dali.

A ira do Rei Lich já certificou que seus planos de chegar à divindade fracassaram e, num ataque de fúria, utiliza uma de suas magias mais potentes contra o ladino, desintegrando seu corpo e alma por completo. Infelizmente, a ação do ladino em afastar o cristal impediu-o de se defender. O lich havia subestimado as habilidades do personagem, mas usou todo o  seu ódio e rancor contra o grupo, descontando o peso de seu fracasso no herói, que simplesmente desapareceu.

Mas o ato de sacrifício do amigo fez o poder do cristal curar todas as feridas dos companheiros e restaurar as forças do grupo, devolvendo-lhes o poder para enfrentá-lo de igual para igual.”

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Um momento intenso para a interpretação dos personagens, podemos dizer que a morte por auto-sacrifício é simbólica para muitos que jogam como heróis. A ação de sacrificar-se pelo bem maior causa impacto emocional nos participantes e um ar de que o heroísmo valoroso pode trazer algum benefício para o grupo, seja no combate ou para ser bem-sucedido em um evento importante.

Em Final Fantasy VII, um dos meus jogos preferidos da franquia, a personagem Aeris descobre que pertence a uma raça com habilidades mágicas inatas. Devido a isso, seu poder era tão importante para a história do jogo que, num ato heroico, escolheu sacrificar-se para ajudar o grupo na missão de salvar o Planeta. Isso afetou a auto-estima do grupo de heróis e até mesmo de quem jogou FFVII.

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No RPG, o auto-sacrifício não é diferente nos contextos de jogos heroicos. O jogador toma essa decisão quando há risco de perdas maiores, seja para salvar inocentes ou pelo bem-estar do grupo. Outro exemplo de auto-sacrifício é quando o personagem o faz para conseguir uma informação vital para a trama ou revelar as fraquezas do inimigo para o grupo. Ou seja, o auto-sacrifício pode ser valorizado na história de forma interessante, entretanto, mesmo uma ação grandiosa como essa precisa de contexto ou pode torná-la banal para a história e frustrar a diversão de todos.

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Como a morte de personagens no RPG é interpretada em sua campanha?

Estes foram três dos exemplos mais comuns que acarretam na morte de personagens no RPG. Como você e seus jogadores lidam com a questão da morte de personagens nas suas campanhas? O falecimento de entes queridos e de NPC’s carismáticos também podem ser inclusos no assunto, pois se há uma importância para a trama do jogo ou pode causar impacto emocional no grupo também está valendo. E quando há resultados frustrados nos dados, em batalhas ou em testes de habilidades, como lidam com a morte certa? Comente conosco!

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